Quando comecei a frequentar as giras, eu nunca perguntava nada. Na minha cabeça, o pensamento era sempre:
“Eles sabem de tudo. Deixo que me guiem com aquilo que acharem certo.”
Por mais que isso tenha um fundo de verdade, uma das primeiras lições que aprendi com as entidades foi justamente o oposto:
“Saiba pedir ajuda.”
“Saiba o que você quer pra sua vida.”
“Aprenda a querer.”
Mas no início da minha jornada, minha mente era uma avalanche. Pensava em mil coisas por segundo, passava por crises de ansiedade… e ainda assim, insistia em não perguntar nada durante as consultas. Queria apenas ouvir.
E, em todas as vezes, ouvia algo como:
“Você pensa demais, né? Precisa aprender a controlar seus pensamentos. Aprenda a acalmar sua mente.”
Ouvi isso por cerca de dois meses. E a cada vez, mesmo repetido, eu recebia como um carinho. Nunca ouvi com mágoa, sempre com gratidão, entendendo que era para o meu bem.
Em uma dessas giras, Dona Tata Mulambo me disse:
“Você não relaxa na praia? Então por que não vai meditar lá?”
Na hora que ouvi, tudo fez sentido.
Fiquei com vontade de ir pra lá no mesmo instante — e fui.
Deu certo.
Ali, na areia, ouvindo o som do mar, tive o primeiro silêncio real dentro da minha cabeça.
Ainda assim, não era fácil.
Essa ansiedade me atrapalhava muito — me impedia de me conectar verdadeiramente com a energia, de irradiar, de incorporar.
Mas eu seguia tentando.
Veio mais uma gira de Exu e Pombagira, e dessa vez fui diferente.
Fui preparado para perguntar.
Eu queria aquele desenvolvimento espiritual com tanta força que deixei o orgulho de lado e, pela primeira vez, formulei mentalmente a pergunta:
“Como posso dar o próximo passo para incorporar?”
(E aqui me desculpem, mas eu preciso rir, hahaha… só de lembrar daquele momento…)
Adivinha com quem eu caí na consulta?
Sim. Tata Mulambo.
Fui até sem óculos, pra nada me atrapalhar.
Cheguei, cumprimentei e perguntei se podia dar um abraço.
Ela negou na hora e perguntou:
“Cadê seus óculos?”
Respondi:
“Tirei pra nada me atrapalhar.”
Ela olhou bem no fundo dos meus olhos e perguntou:
“Você está meditando e se concentrando como eu te pedi?”
Respondi firme:
“Tô!”
E ela, bem calma, retrucou:
“Tá porra nenhuma.”
Normalmente, eu abaixaria a cabeça e deixaria pra lá.
Mas dessa vez foi diferente.
Respondi de volta:
“Talvez eu não esteja fazendo o suficiente, mas tentando eu estou.
Digo mais: eu quero tanto isso que, se tiver que ser pelo amor, show.
Mas se for pela dor… show também!”
Ela me olhou de novo, dessa vez com outro olhar.
Se aproximou… e me abraçou.
Puxou, pela primeira vez, meu malandro.
Caí de joelhos no chão, sentindo uma energia que nunca tinha sentido antes.
Meus olhos fechados, mas o sorriso do malandro estampado no meu rosto.
E ela, no meu ouvido, sussurrando com carinho:
“Calma, meu moço… Vem com calma, pro menino se acostumar.”
Ai, ai…
Como é bom viver tudo isso.


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